sua imagem revelada era perfeita
como se os deuses não quisessem mais mais brincar
toda nula, toda brilhosa
tão normativa, tão… normal
como se fosse um doce muito doce para se terminar
tão repetitiva, tão… igual
e cedo sabia
a terra um dia
sabendo, tardia
lhe carregar
e nada
…
nada daquilo
iria eternamente brilhar
…que se fosse revelada jamais seria a mesma. Claro, seria mais bela, mais… desejável, mas toda aquela energia que era só dela, toda aquela… beleza…? Mas como seria possível perder beleza ao ficar mais bela? Ela sabia, sim, que mais cedo ou mais tarde seria inevitável, não se faz sem se pagar. Mas era dela, também, ser o contrário do prometido, o negativo. E tanta promessa foi feita que era, de fato, inevitável perder toda a sua beleza para tornar-se bela, sim, aos olhos dos outros.
Nunca sequer chegou a imaginar que não era necessário, e isso de maneira alguma, queimar. E por revelar-se aos poucos esquentou uma nova história. E por revelar-se acabou de vez com sua majestosa glória.
confuso(o)alimento(que)nasce(já)sabendo
fica assim sem pontuação
as vezes parece que a mão (que dá)
nunca é a mesma que recebe
e vem Jesus falando da outra face
e vem todo mundo falando de tudo mas ah se falasse
cansa o ritmo na falta de pausa
morre a fala na falta de lábia
vive-se enganando falando que vive-
se assim ou errado
é a mesma coisa só que não
agora ela é cheia de rancor
cheia de coisas de gente velha, de ódio, de bolor
cheia de calos, e rasgos e cascas
de calos, e rasgos e cascas
cheia de rasgos, e calos e repetições
é a mesma coisa, só que cheia de vidas passadas
e alegrias enterradas
e novas promessas de sim
e de não
é um loop infinito de amores amigos
e infinitas paixões
de mentira
de verdade
definitivamente sem repetições
a mesma coisa sem que ela se repita nem sequer uma vez
e tudo se embaralha
mantendo as cores de vidas passadas
pisando nas flores atentas, caladas
como em um fluxo de brasa e cinzeiro
calmo
nocivo
em casa, rasteiro
a pontuação quem dá é quem olha
não quem recita
nem quem escreve
a vida quem vive é a noite
não quem chora
nem quem respira
tudo se embaralha em fluxo de fumaça
e fogo
e sempre que se apaga
vem a mão querendo acender
o novo
mantendo as cores de vidas passadas
de encontro com o sono
amado
aos poucos muda o céu
pra quem olha pra cima
pra quem joga com a rima
aos loucos muda o réu
(e quem olha sempre reto perde o horizonte em algum lugar)
-agora, como era pra se ler?
aos poucos mudo céu
pra quemolhapra cima
pra quem brincacarrima
aos loucos mudo réu
(e quemolha semprerreto perdehorizontem-algum-lugar)
tudo começa pela mesma coisa
(ao menos) um começo
que antes mesmo de começar
já era, sempre foi e sempre será
(ao menos) o começo
e nunca sabemos que fim vai levar
e nunca prevemos que fim vai chegar
mas sabemos que sempre
- e isso de sempre é sempre mesmo -
tudo inevitavelmente renasce
(ao menos) outro começo
ficou claro para mim
eu não sou, mas fico rouco
não vou, mas fico louco
e tenho dessas, de pouco a pouco
ir fazendo um ciclo não cíclico e me fechar
em falsas promessas de abertura, de mudança de gosto e paladar
ficou claro para mim
tem coisa que não tem jeito
vem, loisa que cobre o leito
enquanto amo o que posso
quando posso
enquanto posso
ia sempre pra mesma direção
nunca assumiu nenhum risco
tinha essa teimosa noção do luar
nunca, presumiu, nunca ouviu um disco
que fosse ar
riscado
que não fosse (já) seu
que não fosse, enfim, já escutado
e todas as pessoas se amando ao seu redor
e todas as pessoas falando, copulando
ralando e fedendo, e seu pau maior
mas sem nenhum risco
sem ação, sem remorso
um defunto respira dentro de seu casco
.
presta a atenção que presta pra alguma coisa
além da própria atenção prestada?
fala algo que fala mais ao falo
que a própria palavra chupando babada?
nem sequer sabe
não corre o risco do gozo desperdiçado
ou corre, tanto quanto corre e foge do amor
fugindo sem risco, entrelaçado
em seu próprio cadarço de corredor
.
uma gota
apenas uma gota que cai
já é mais, a mais, demais
e seu mundo
como o mar dessa gota
sem que se veja
se vai
é engraçado como as pessoas não conseguem pedir desculpas
como se fosse de alguma forma obrigatório não errar
nunca falhar me parece tão menos nobre, ou até menos, tão menos possível que
assumir seus erros. é tão normal dar cagada, tão… humano
deve ser alguma coisa cultural que eu, por alguma graça, pulei
nem vi passar essa tendência social de sempre acertar
tenho um gosto, aliás, muito grande por todas as vezes que errei
por tanta desculpa que pedi
e que, em culpa, por fim aprendi
sou humano, sei, de tanto que errei
que quem acerta sou eu
não a coisa
nem ninguém
(desculpa, tá?)




