Molesto

e sobraram contos vazios
histórias que hoje não têm pé
nem cabeça
restaram pontos cheios de outros pontos
incompletos
e goles cheios de nós
sem que desça
sabe quando é tão azedo que saliva?
ficaram os taninos
sedosos, não agressivos
enchendo a boca de um gosto que não existe sem ar

e sobraram contos vazios

histórias que hoje não têm pé

nem cabeça

restaram pontos cheios de outros pontos

incompletos

e goles cheios de nós

sem que desça

sabe quando é tão azedo que saliva?

ficaram os taninos

sedosos, não agressivos

enchendo a boca de um gosto que não existe sem ar

sua imagem revelada era perfeita
como se os deuses não quisessem mais mais brincar
toda nula, toda brilhosa
tão normativa, tão… normal
como se fosse um doce muito doce para se terminar
tão repetitiva, tão… igual
e cedo sabia
a terra um dia
sabendo, tardia
lhe carregar
e nada
…
nada daquilo 
iria eternamente brilhar

sua imagem revelada era perfeita

como se os deuses não quisessem mais mais brincar

toda nula, toda brilhosa

tão normativa, tão… normal

como se fosse um doce muito doce para se terminar

tão repetitiva, tão… igual

e cedo sabia

a terra um dia

sabendo, tardia

lhe carregar

e nada

nada daquilo 

iria eternamente brilhar

passou a dor que estava por aí
mas não de acabar
…
passou, por aqui
e acabou trazendo junto um rancor
uma mágoa velha e grudada em suposições
passou por aqui aquela dor encardida e endurecida do seu revelar
e enquanto ela ardia no estômago azia
vi sua beleza por fim estragar

passou a dor que estava por aí

mas não de acabar

passou, por aqui

e acabou trazendo junto um rancor

uma mágoa velha e grudada em suposições

passou por aqui aquela dor encardida e endurecida do seu revelar

e enquanto ela ardia no estômago azia

vi sua beleza por fim estragar

…que se fosse revelada jamais seria a mesma. Claro, seria mais bela, mais… desejável, mas toda aquela energia que era só dela, toda aquela… beleza…? Mas como seria possível perder beleza ao ficar mais bela? Ela sabia, sim, que mais cedo ou mais tarde seria inevitável, não se faz sem se pagar. Mas era dela, também, ser o contrário do prometido, o negativo. E tanta promessa foi feita que era, de fato, inevitável perder toda a sua beleza para tornar-se bela, sim, aos olhos dos outros.
Nunca sequer chegou a imaginar que não era necessário, e isso de maneira alguma, queimar. E por revelar-se aos poucos esquentou uma nova história. E por revelar-se acabou de vez com sua majestosa glória.

…que se fosse revelada jamais seria a mesma. Claro, seria mais bela, mais… desejável, mas toda aquela energia que era só dela, toda aquela… beleza…? Mas como seria possível perder beleza ao ficar mais bela? Ela sabia, sim, que mais cedo ou mais tarde seria inevitável, não se faz sem se pagar. Mas era dela, também, ser o contrário do prometido, o negativo. E tanta promessa foi feita que era, de fato, inevitável perder toda a sua beleza para tornar-se bela, sim, aos olhos dos outros.

Nunca sequer chegou a imaginar que não era necessário, e isso de maneira alguma, queimar. E por revelar-se aos poucos esquentou uma nova história. E por revelar-se acabou de vez com sua majestosa glória.

confuso(o)alimento(que)nasce(já)sabendo
fica assim sem pontuação
as vezes parece que a mão (que dá)
nunca é a mesma que recebe
e vem Jesus falando da outra face
e vem todo mundo falando de tudo mas ah se falasse
cansa o ritmo na falta de pausa
morre a fala na falta de lábia
vive-se enganando falando que vive-
se assim ou errado

confuso(o)alimento(que)nasce(já)sabendo

fica assim sem pontuação

as vezes parece que a mão (que dá)

nunca é a mesma que recebe

e vem Jesus falando da outra face

e vem todo mundo falando de tudo mas ah se falasse

cansa o ritmo na falta de pausa

morre a fala na falta de lábia

vive-se enganando falando que vive-

se assim ou errado

é a mesma coisa só que nãoagora ela é cheia de rancorcheia de coisas de gente velha, de ódio, de bolorcheia de calos, e rasgos e cascasde calos, e rasgos e cascascheia de rasgos, e calos e repetições
é a mesma coisa, só que cheia de vidas passadase alegrias enterradase novas promessas de sime de nãoé um loop infinito de amores amigose infinitas paixõesde mentirade verdadedefinitivamente sem repetições
a mesma coisa sem que ela se repita nem sequer uma vez 

é a mesma coisa só que não
agora ela é cheia de rancor
cheia de coisas de gente velha, de ódio, de bolor
cheia de calos, e rasgos e cascas
de calos, e rasgos e cascas
cheia de rasgos, e calos e repetições

é a mesma coisa, só que cheia de vidas passadas
e alegrias enterradas
e novas promessas de sim
e de não
é um loop infinito de amores amigos
e infinitas paixões
de mentira
de verdade
definitivamente sem repetições

a mesma coisa sem que ela se repita nem sequer uma vez 

mas tudo sempre volta
e sim, se formará
como se formou
apenas uma forma de vida que necessita
e apenas
a morte
cada barco com sua
âncora
nada passa em branco quando
cada um que olha
enxerga, finalmente o que,
relendo percebeu

mas tudo sempre volta

e sim, se formará

como se formou

apenas uma forma de vida que necessita

e apenas

a morte

cada barco com sua

âncora

nada passa em branco quando

cada um que olha

enxerga, finalmente o que,

relendo percebeu

e se apaga
quando apaga
é como se tivesse…
não sumido, mas mudado completamente de cor
quer dizer, não completamente…
inversamente
negativamente
chega do avesso como se fosse
entranha
estranha apenas o câncer que ainda não se formou

e se apaga

quando apaga

é como se tivesse…

não sumido, mas mudado completamente de cor

quer dizer, não completamente…

inversamente

negativamente

chega do avesso como se fosse

entranha

estranha apenas o câncer que ainda não se formou

e tudo se embaralha
mantendo as cores de vidas passadas
pisando nas flores atentas, caladas
como em um fluxo de brasa e cinzeiro
calmo
nocivo
em casa, rasteiro
a pontuação quem dá é quem olha
não quem recita
nem quem escreve
a vida quem vive é a noite
não quem chora
nem quem respira
tudo se embaralha em fluxo de fumaça
e fogo
e sempre que se apaga
vem a mão querendo acender
o novo
mantendo as cores de vidas passadas
de encontro com o sono
amado

e tudo se embaralha

mantendo as cores de vidas passadas

pisando nas flores atentas, caladas

como em um fluxo de brasa e cinzeiro

calmo

nocivo

em casa, rasteiro

a pontuação quem dá é quem olha

não quem recita

nem quem escreve

a vida quem vive é a noite

não quem chora

nem quem respira

tudo se embaralha em fluxo de fumaça

e fogo

e sempre que se apaga

vem a mão querendo acender

o novo

mantendo as cores de vidas passadas

de encontro com o sono

amado

aos poucos muda o céu
pra quem olha pra cima
pra quem joga com a rima
aos loucos muda o réu
(e quem olha sempre reto perde o horizonte em algum lugar)


-agora, como era pra se ler?


aos poucos mudo céu
pra quemolhapra cima
pra quem brincacarrima
aos loucos mudo réu
(e quemolha semprerreto perdehorizontem-algum-lugar)

aos poucos muda o céu

pra quem olha pra cima

pra quem joga com a rima

aos loucos muda o réu

(e quem olha sempre reto perde o horizonte em algum lugar)

-agora, como era pra se ler?

aos poucos mudo céu

pra quemolhapra cima

pra quem brincacarrima

aos loucos mudo réu

(e quemolha semprerreto perdehorizontem-algum-lugar)

tudo começa pela mesma coisa
(ao menos) um começo
que antes mesmo de começar
já era, sempre foi e sempre será
(ao menos) o começo
e nunca sabemos que fim vai levar
e nunca prevemos que fim vai chegar
mas sabemos que sempre
- e isso de sempre é sempre mesmo -
tudo inevitavelmente renasce
(ao menos) outro começo

tudo começa pela mesma coisa

(ao menos) um começo

que antes mesmo de começar

já era, sempre foi e sempre será

(ao menos) o começo

e nunca sabemos que fim vai levar

e nunca prevemos que fim vai chegar

mas sabemos que sempre

- e isso de sempre é sempre mesmo -

tudo inevitavelmente renasce

(ao menos) outro começo

ficou claro para mim
eu não sou, mas fico rouco
não vou, mas fico louco
e tenho dessas, de pouco a pouco
ir fazendo um ciclo não cíclico e me fechar
em falsas promessas de abertura, de mudança de gosto e paladar
ficou claro para mim
tem coisa que não tem jeito
vem, loisa que cobre o leito
enquanto amo o que posso
quando posso
enquanto posso

ficou claro para mim

eu não sou, mas fico rouco

não vou, mas fico louco

e tenho dessas, de pouco a pouco

ir fazendo um ciclo não cíclico e me fechar

em falsas promessas de abertura, de mudança de gosto e paladar

ficou claro para mim

tem coisa que não tem jeito

vem, loisa que cobre o leito

enquanto amo o que posso

quando posso

enquanto posso

ia sempre pra mesma direção
nunca assumiu nenhum risco
tinha essa teimosa noção do luar
nunca, presumiu, nunca ouviu um disco
que fosse ar
riscado
que não fosse (já) seu
que não fosse, enfim, já escutado
e todas as pessoas se amando ao seu redor
e todas as pessoas falando, copulando
ralando e fedendo, e seu pau maior
mas sem nenhum risco
sem ação, sem remorso
um defunto respira dentro de seu casco
.
presta a atenção que presta pra alguma coisa
além da própria atenção prestada?
fala algo que fala mais ao falo 
que a própria palavra chupando babada?
nem sequer sabe
não corre o risco do gozo desperdiçado
ou corre, tanto quanto corre e foge do amor
fugindo sem risco, entrelaçado
em seu próprio cadarço de corredor
.
uma gota 
apenas uma gota que cai
já é mais, a mais, demais
e seu mundo
como o mar dessa gota
sem que se veja
se vai

ia sempre pra mesma direção

nunca assumiu nenhum risco

tinha essa teimosa noção do luar

nunca, presumiu, nunca ouviu um disco

que fosse ar

riscado

que não fosse (já) seu

que não fosse, enfim, já escutado

e todas as pessoas se amando ao seu redor

e todas as pessoas falando, copulando

ralando e fedendo, e seu pau maior

mas sem nenhum risco

sem ação, sem remorso

um defunto respira dentro de seu casco

.

presta a atenção que presta pra alguma coisa

além da própria atenção prestada?

fala algo que fala mais ao falo 

que a própria palavra chupando babada?

nem sequer sabe

não corre o risco do gozo desperdiçado

ou corre, tanto quanto corre e foge do amor

fugindo sem risco, entrelaçado

em seu próprio cadarço de corredor

.

uma gota 

apenas uma gota que cai

já é mais, a mais, demais

e seu mundo

como o mar dessa gota

sem que se veja

se vai

é engraçado como as pessoas não conseguem pedir desculpas
como se fosse de alguma forma obrigatório não errar
nunca falhar me parece tão menos nobre, ou até menos, tão menos possível que
assumir seus erros. é tão normal dar cagada, tão… humano
deve ser alguma coisa cultural que eu, por alguma graça, pulei
nem vi passar essa tendência social de sempre acertar
tenho um gosto, aliás, muito grande por todas as vezes que errei
por tanta desculpa que pedi
e que, em culpa, por fim aprendi
sou humano, sei, de tanto que errei
que quem acerta sou eu
não a coisa
nem ninguém
(desculpa, tá?)

é engraçado como as pessoas não conseguem pedir desculpas

como se fosse de alguma forma obrigatório não errar

nunca falhar me parece tão menos nobre, ou até menos, tão menos possível que

assumir seus erros. é tão normal dar cagada, tão… humano

deve ser alguma coisa cultural que eu, por alguma graça, pulei

nem vi passar essa tendência social de sempre acertar

tenho um gosto, aliás, muito grande por todas as vezes que errei

por tanta desculpa que pedi

e que, em culpa, por fim aprendi

sou humano, sei, de tanto que errei

que quem acerta sou eu

não a coisa

nem ninguém

(desculpa, tá?)

a confiança não passa de fé
é uma utopia
e a gente confia
enquanto dá pé
enquanto não vem um abutre testar nossa fé
ou alguma azia
e a gente zomba, repudia
enquanto da ré
a confiança não passou de piada
que com fé
a gente ria

a confiança não passa de fé

é uma utopia

e a gente confia

enquanto dá pé

enquanto não vem um abutre testar nossa fé

ou alguma azia

e a gente zomba, repudia

enquanto da ré

a confiança não passou de piada

que com fé

a gente ria